A história
De uma caixa de sucata eletrônica em Maringá a uma van no fim do mundo.

Capítulo 00
O moleque da sucata
Londrina e Maringá, janeiro de 2005 a dezembro de 2009

Nasci em Londrina porque minha mãe se recusou a me ter em São Paulo. A família era de lá, mas ela odiava a cidade, então perto do parto foi passar um tempo com minha avó paterna no Paraná. Foi assim que o Paraná virou casa.
Minha mãe era professora e tratou a mim e a minha irmã como experimentos da carreira dela. Minha irmã teve uma criação de livros. A minha foi de mato, e sem brinquedos. O que eu tinha era um cesto gigante de recicláveis, embalagens, tubos de papel toalha, bandejas de isopor, uma fita crepe e uma tesoura. Com isso eu fazia meus brinquedos. Os outros vinham de parentes em festa de aniversário.
Meu pai era bibliotecário de formação e gerente comercial de profissão. O que ele me ensinou cabe em uma frase: se alguém consegue fazer, você também consegue. Quando minha mãe sofria para cozinhar na luz ruim do apartamento alugado, ele instalou uma lâmpada fluorescente embaixo do armário no mesmo dia. Eu achava aquilo a coisa mais incrível do mundo. Foi meu primeiro contato com eletrônica.
Desde então sou apaixonado por sucata. Todo mundo em volta me dava aparelho velho, computador, DVD player, e eu desmontava tudo para entender como funcionava. Lembro claramente que foi ali que senti pela primeira vez o estado de hiperfoco, horas e horas vidrado em construir alguma coisa com aquelas peças. Meu pai me ensinou a soldar, e isso me deixou tirar componentes das sucatas e reaproveitar em outras coisas.
A primeira automação da minha vida foram dois interruptores de madeira no chão do quarto, ao lado da cama. Eu pisava neles ao acordar e ligavam o rádio e a luz. Sempre fui apaixonado por automatizar.
Também fazia lanternas de madeira com eletrônica dentro e vendia na escola. Gastava um real em peça e vendia por quinze. Fiz muito dinheiro assim.
Em casa tinha o computador da família, um Pentium 4 com Windows XP, meio giga de RAM e oitenta de HD. Eu fuçava na internet a tarde toda e sempre acabava baixando algum adware. Meu pai ficava furioso, e eu tinha que consertar o computador antes de ele chegar em casa, senão ficava sem. Aprendi Windows na marra.
Quando meus amigos começaram a usar MSN, entrei na onda de fazer vírus para sacanear com eles. Comunidades de batch scripting no Orkut foram meu primeiro contato com programação. Meus programas desligavam o computador ou abriam o drive de CD, com o ícone trocado pelo de algum jogo da época.
Nessa época saiu o Lego Mindstorms, a união perfeita dos dois mundos: eu podia rodar meus programas na vida real. Custava quatro mil reais, uns dez salários mínimos. Meu pai conseguiu importar dos Estados Unidos por um amigo, uma caixa enorme, um trabalho danado. Foi canônico na minha vida. Tenho ele até hoje. Mais tarde instalei um firmware customizado no NXT que rodava C++ direto, e aquilo abriu uma porta que eu ainda não sabia fechar.
Capítulo 01
Doze anos e um sistema em produção
Maringá, janeiro de 2010 a dezembro de 2014

Um colega me falou do Sérgio Yamada, uma escola de programação em Maringá. Me matriculei em lógica de programação e foi a coisa mais legal que fiz na minha vida. Eu tinha doze anos, rodeado de gente de pelo menos trinta. Todo mundo queria conversar comigo. Muitos duvidavam que eu fosse entender alguma coisa, e alguns achavam que meus pais tinham me forçado a estar ali.
Depois veio PHP e MySQL, depois PHP avançado. Eu queria trabalhar, mas tinha doze anos. Uma semana internado com apendicite, meu pai ao meu lado, virou conversa longa sobre os problemas da empresa dele. O PDVer, meu primeiro software em produção, saiu daquela cama: uma ferramenta para os representantes dele coletarem dados no ponto de venda.
Depois disso bati na porta da DB1, a maior software house da cidade, porque eu queria ver como era uma de verdade. Saí de lá com conselho de uma dúzia de desenvolvedores e um nome: Soraia Novaes.
Capítulo 02
Desafio do Código
Maringá, outubro de 2014 a abril de 2015

O RH da DB1 me indicou a Soraia Novaes, que tinha acabado de fundar uma ONG para ensinar programação a crianças que nunca pagariam um curso. Eu construí a plataforma. Ela entrou em escolas públicas de Maringá e Sarandi, e eu dava aula com ela onde tivesse uma sala: escolas, um McDonald’s, Animeingá, Ticnova.
Hoje são mais de 260 mil alunos e cerca de 300 cadastros novos por dia. Já passou no SBT, na Globo e na Record.
Neste capítulo: Desafio do Código
Capítulo 03
Uma bolsa que veio de um hackathon
Maringá, janeiro de 2017 a dezembro de 2018

Comecei Ciência da Computação na UEM em 2017 e, em vez de estudar, fiz o aplicativo que a universidade não tinha. Ele raspava o portal do aluno atrás de cardápio, horário, notas e faltas, e chegou a 2.500 usuários nas duas lojas. No mesmo ano meu time ficou em 22º no NASA Space Apps, e a Unicesumar me ofereceu bolsa integral, então me transferi.
Aí veio 2018: finalista mundial no NASA Space Apps, primeiro lugar no VISA Hackathon, primeiro no Hacker Day Maringá. A Onebot e a Nappo nasceram nos intervalos.
Neste capítulo: App do aluno da UEM, Onebot, Nappo
Capítulo 04
Construindo a Neopro
São Paulo, outubro de 2019 a setembro de 2023

Cofundei a Neopro e construí o produto do zero, web e mobile, depois liderei o time que fez ele crescer. Adidas, Hering, Clube Melissa e Lança Perfume rodavam as lojas nele, o que significou integrar com mais de trinta ERPs diferentes. Em 2020 passamos pela Startup Zone do Google e ficamos em primeiro entre 374 inscritos.
Em paralelo fiz o bot de WhatsApp da Sony Brasil, uma das primeiras homologações de WhatsApp do país, e palestrei na Campus Party em 2018 e 2019.
Neste capítulo: Neopro, Bot de WhatsApp da Sony Brasil
Capítulo 05
A construção
Brasil, março de 2020 a setembro de 2021

Quando o mundo fechou em 2020, comprei uma van e construí uma casa dentro dela com as minhas mãos: cama, cozinha, água, solar e um sistema de 12 volts, do mesmo jeito que eu fazia lanternas quando era criança. Virou o @dailynomade. Vou contar essa parte direito quando eu garimpar as fotos no arquivo.
Neste capítulo: Spots
Capítulo 06
A estrada
Ushuaia, setembro de 2021 a dezembro de 2023

O rastreador da van registrou cada parada de setembro de 2021 a dezembro de 2023. Primeiro o Brasil, depois Uruguai e Argentina até a Terra do Fogo, Chile, de volta pelo Brasil até o Acre, então Equador, Colômbia, depois o México e os Estados Unidos, do Texas à Virgínia. Trabalhei de dentro da van o caminho inteiro: Neopro até setembro de 2023, e LSAT Demon desde maio de 2022. A rota é a linha vermelha no globo.
Capítulo 07
Austin, e todo lugar
Austin, maio de 2022 a hoje

Estou na LSAT Demon desde maio de 2022, full-stack: Node, TypeScript, Postgres, React Native. Em algum momento a bancada voltou. Hoje a mesa tem app de Flipper Zero, placa de ESP32 e integração de Home Assistant para controlador de portão e central de alarme, tudo do lado do laptop.
Hotspot Arcade, Copy, browser2zen e o resto da oficina saíram dessa bancada. É o mesmo moleque com o ferro de solda, só que com peças melhores.
Neste capítulo: Hotspot Arcade, Copy, Flytrap
Capítulo 08
Sem endereço fixo
Em todo lugar, janeiro de 2024 a hoje

Continuo sem base fixa. Tenho uma Sony A7IV, cento e seis fotos no Unsplash até agora, e um globo nesta página que vai se preenchendo conforme eu ando.
A versão curta, para quem contrata: Currículo.